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A vida da Carolina

A vida da Carolina

08
Ago18

Carta ao meu pai

Carolina

Inocente ou culpada? Quem pode fazer tal julgamento sem conhecer a verdade? E, pensando bem, que critérios é que se usa para julgar alguém? Como humanos é muito fácil tirar conclusões a partir do nosso "livro moral". Cada pessoa tem um livro moral. Todos sabemos o que está bem e o que está mal, mas nunca vamos encontrar alguém que tenha exactamente o mesmo livro que nós. É impossível. Ninguém viveu as nossas experiências da mesma maneira que nós. Portanto volto ao mesmo, que critério é que se segue para julgar uma situação tão pessoal como é a morte? Ninguém sabe o que estamos a sentir. 

É difícil julgar uma situacão quando o coração tem mais peso que a razão.

A morte do meu pai significou não só instabilidade familiar mas também instabilidade emocional para todos os que conviviam com ele. Partiu há mais de um mês, e nem por isso sinto menos a sua presença. Para mim ainda está na sala, deitado no chão a pedir para se levantar, com dores, confuso. E eu ainda estou a abraça-lo a pedir a qualquer força do universo que fosse tudo um terrivel pesadelo. A pedir que todas as vezes que pensei mal dele não fossem uma realidade. A pedir desculpa por nunca ter ouvido os seus concelhos. A pedir não ter sido um stress. A pedir que o tempo voltasse atras. A pedir ter apanhado o comboio. A pedir que o meu pai não estivesse a morrer nos meus braços. A pedir perdão e a pedir que tudo parasse.

O que é que eu fiz, pai? Desculpa. Nunca foi a minha intenção fazer-te sofrer. Nunca. E arrependo-me tanto de tantas coisas que fiz para te contrariar. Tantas vezes que te desrespeitei. Tantas vezes que perdi a paciência contigo. 

Sei que eras infeliz. Eu também. Cada vez que te via a sofrer pelo trabalho sentia raiva a apoderar-se do meu corpo. Eles foram os culpados de tu estares assim, de estares ali. Eles foram os culpados de teres chegado ao estado em que chegaste e nos teres deixado desta maneira. Os teus chefes, os teus empregados, a tua familia. Não aguento com a culpa que sinto. Não sei o que fazer com os sentimentos que tenho sobre a tua morte. Devia ter sido uma alegria na tua vida mas fui um stress mais.

Sei que as pessoas não param de dizer que não tenho a culpa, que ninguém tem a culpa. Que eras uma bomba pronta para explodir. Que era uma questão de tempo. Não era. Ninguém merece. Ninguém tem o direito de fazer um julgamento assim.

Já falei com tanta gente, familia, amigos, namorado, piscóloga. Ninguém me pode ajudar. Nada que eles me dizem ajuda a diminuir a culpa ou a dor. Eu podia ter sido melhor. Todos podiamos ter sido melhores. Como é que alguém tem a coragem de dar a sua opinião sobre como é que eu tenho de me sentir? Eu certamente não estou interessada no que têm a dizer. As pessoas acham que sabem o que é que eu quero ouvir. Acham que sabem o que dizer. Mas tenho que sair do buraco sozinha. Só o meu livro moral pode tirar-me deste lugar escuro. Só tenho que o desifrar antes porquê agora mesmo estou completamente perdida. Ninguém me avisou que faltavam capitulos neste livro da vida. 

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 Agora iluminas o céu, homem farol.

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